Sobre

Este é o Banco de textos 'Pesquisa Artística em Composição Musical', espaço virtual de compartilhamento de um dos resultados do projeto de pesquisa "Compor e Educar: interfaces entre criação artística e ensino de música", coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Rios Filho, na Universidade Federal do Maranhão — Campus de São Bernardo. 

Trata-se de um banco de textos, onde estão indicados e catalogados trabalhos da área de criação e composição musical, feitos no Brasil, que se aproximam, em seu cerne, de ideias relacionadas à Pesquisa Artística (PA), termo cunhado inicialmente sobretudo em centros de ensino superior de artes europeus - a partir do Processo de Bolonha [1] - para dar conta do "desenvolvimento de uma cultura de pesquisa a partir da posição do artista praticante." [2]

Mesmo frente a toda a diversidade de aspectos e particularidades metodológicas, ideológicas e filosóficas presentes nas discussões acerca da PA, nesse primeiro momento um único critério central é que foi o norteador desse trabalho de catalogação, dentro da etapa inicial do projeto. Trabalhos que respondessem positivamente à seguinte questão, foram incluídos aqui como, de alguma forma, relacionados ou importantes para a compreensão do que viria a ser uma prática de Pesquisa Artística em composição musical, no Brasil: 'A análise, a reflexão e a discussão de obras e/ou processos criativos do próprio autor é central, no trabalho?'

Seguimos a provocação lançada por Bertissolo [3], que, em trabalho apresentado no Congresso da ANPPOM de 2010, fez um levantamento dos trabalhos publicados na seção temática de Composição Musical, em três congressos anteriores, da mesma associação. Ao identificar, dentre outros aspectos mencionados no artigo como de importância premente para definição de bases para o campo de estudo da composição, que somente uma parcela minoritária dos trabalhos citam obras do próprio autor, Bertissolo lança então uma questão importante, que toca ideologicamente no cerne da produção acadêmica na área: não faz sentido traçar um percurso de produção acadêmica em composição que não seja pautado "a partir de conceitos que não os mobilizados nos contextos criativos", especialmente  "em obras dos próprios autores".

O que faz com que um trabalho de cunho estritamente analítico-musicológico sobre uma obra de um compositor contemporâneo algures, seja considerado como pertencente à área acadêmica da criação musical? Não estaria, a princípio, um trabalho como esse, tão bem acomodado em 'musicologia' ou 'análise', quanto uma análise motívica de uma obra de Brahms? Naquela ocasião, o autor não estava preocupado em definir ou propor ideias como as da PA, mas muito mais em questionar quais seriam as bases, interesses e estruturas ideológicos e epistemológicos da área acadêmica da composição musical, como nós compositores estávamos e estamos construindo a identidade dessa área, portanto uma cultura de pesquisa para a área. A nosso ver, a PA apresenta caminhos possíveis, viáveis... propostas inteligentes e que valorizam a prática criativa (ou contextos criativos), exatamente o que a área carrega de força (e foco) motriz.

Em um momento futuro da presente pesquisa, pretende-se refinar a classificação desses trabalhos, à luz da definição de outros aspectos importantes para a construção de uma nova cultura de pesquisa, como clamam aqueles que dedicam-se ao desenvolvimento da PA. Afinal, por qual motivo mesmo, digamos, uma análise musicológica formal de uma peça do próprio analista, diferenciar-se-ia essencialmente de um trabalho de pesquisa tradicional (mais alinhado à tradição científica das práticas investigativas da academia) na área?

Ao mesmo tempo em que a resposta óbvia segue na mesma direção das guinadas epistemológicas ocorridas na sociologia e antropologia, quando pesquisadores passaram a ser os próprios objetos de pesquisa (ou se identificar abertamente com ele), limitar-se a esse ponto de ignição, por mais transformador da perspectiva investigativa que ele seja, não dá conta de uma série de aspectos importantes para a análise e para a própria construção corrente dessa nova cultura de pesquisa, para a área. Essa guinada de perspectiva representa necessariamente uma série de mudanças ideológicas, filosóficas e metodológicas, que devem ser levadas em consideração.

Portanto, ao seguir inicialmente esse critério único da 'autoanálise', digamos assim, o presente banco de textos não propõe, ainda, exatamente um catálogo de textos pertencentes, ou representantes da PA. Até porque não há exatamente um modelo, ou um método, ou uma teoria formalizada da PA. Damos, outrossim, um primeiro passo para tentar reconhecer esforços, dentro da academia, de definição de área que, ao valorizar sobretudo a prática fundante da área ela própria, aproxima-se assim de certas ideias que podem estar relacionadas mais ou menos diretamente a essa 'cultura de pesquisa' da PA.

O Banco representa, como dito acima, uma parte dos resultados do projeto Compor e Educar. Outros resultados, neste primeiro ano do projeto, incluem:

a) o desenvolvimento dos Planos Artísticos Individuais, pelos nove discentes membros do Grupo de Estudos 'Compor e Educar' - projetos de criação e pesquisa artística, envolvendo a composição e performance de obras inéditas e a elaboração de resultados secundários de pesquisa (sendo as próprias obras/performance criadas os resultados primários, portanto), envolvendo a articulação verbal ou verbal-visual de formulações teóricas, narrativas, poéticas, analíticas, filosóficas e/ou descritivas dos processos criativos.
b) a organização do I SINPA - Seminário Interno de Pesquisa Artística CSB/UFMA, onde os resultados dos Planos Artísticos Individuais serão apresentados e discutidos com a comunidade artística e acadêmica.
c) a tradução de textos importantes para a discussão da temática da PA.
d) a elaboração e publicação de ensaios e artigos, em decorrência da pesquisa.


[1] LESAGE, Dieter. Who’s Afraid of Artistic Research? On measuring artistic research output. Art & Research, v. 2, n. 2, 2009.

[2] COESSENS, Kathleen; CRISPIN, Darla; DOUGLAS, Anne. The artistic turn: a manifesto. Leuven University Press., 2009. p. 37

[3] BERTISSOLO, Guilherme. Compondo o campo de estudo: perspectivas sobre o compor nos três últimos congressos da ANPPOM. In: Anais do XX Congresso da ANPPOM. 2010.

  

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